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Em um momento em que o mundo busca soluções para restaurar solos degradados, reduzir emissões de gases de efeito estufa e ampliar a segurança alimentar, uma pesquisa realizada na Amazônia brasileira aponta para uma resposta que antecede em séculos os debates modernos sobre sustentabilidade. O estudo “Monturo: Tecnologia Ancestral de Manejo da Matéria Orgânica na Recuperação de Solos Degradados em Quintal Agroflorestal”, publicado em 2026 na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, demonstra que uma prática tradicional amazônica pode desempenhar papel decisivo na recuperação da fertilidade dos solos e no sequestro de carbono.
A pesquisa foi conduzida pelo pesquisador Isaias da Silva Pereira, doutor em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Viçosa e professor do Colégio Técnico de Floriano da Universidade Federal do Piauí. O trabalho avaliou o funcionamento do chamado monturo — área onde resíduos orgânicos domésticos são depositados continuamente — em um quintal agroflorestal localizado em Santarém.
O resultado foi contundente: entre três diferentes formas de manejo analisadas, o monturo apresentou o melhor desempenho na acumulação, transformação e incorporação da matéria orgânica ao solo, demonstrando potencial para restaurar áreas degradadas e aumentar os estoques de carbono.
“O monturo mostrou-se mais eficiente na promoção do acúmulo, transformação e incorporação da matéria orgânica, com implicações diretas no aumento dos estoques de carbono e na recuperação do solo degradado”, esclarece Isaias Pereira no estudo.
O problema escondido sob os pés
A degradação dos solos figura entre os principais desafios ambientais do século XXI. Em regiões tropicais, especialmente na Amazônia, solos altamente intemperizados possuem baixa capacidade natural de retenção de nutrientes. Nessas condições, a matéria orgânica torna-se o principal elemento responsável pela fertilidade, pela estabilidade estrutural e pela capacidade produtiva da terra.
Ao mesmo tempo, cresce o desafio da destinação dos resíduos orgânicos urbanos. Em Santarém, por exemplo, cerca de 200 toneladas de resíduos sólidos são encaminhadas diariamente ao lixão do Perema. Mais da metade desse volume corresponde à matéria orgânica, cuja decomposição inadequada gera chorume e emissões de metano, um dos gases mais potentes no aquecimento global.
Foi nesse contexto que o pesquisador decidiu investigar uma prática tradicional ainda presente em quintais amazônicos.
“O monturo configura-se como uma tecnologia ancestral de manejo concentrado de resíduos orgânicos, tradicionalmente utilizada para o reaproveitamento da fração orgânica no próprio local de geração”, destaca Isaias Pereira.
Um experimento de um ano e meio
O estudo acompanhou, entre julho de 2023 e janeiro de 2025, três áreas com diferentes formas de manejo: um solo degradado com pouca cobertura vegetal (U1), um monturo domiciliar com deposição contínua de resíduos orgânicos (U2) e uma área de varrição composta principalmente por folhas, galhos e restos vegetais (U3).
Vista geral da unidade de estudo monturo no quintal agroflorestal (U2).
O monturo (U2), observou-se uma maior concentração de material orgânico vivo cbrindo a superfície do solo contribuído para um maior aporte de resíduos orgânicos de forma contínua e concentrada, proveniente da deposição diária de resíduos domésticos, com quantidade média de aproximadamente 0,60 kg dia- 1, conforme evidenciado na Figura. O material apresenta composição heterogênea, incluindo restos alimentares, cascas de frutas, folhas e cinzas, caracterizando uma fração orgânica de alta biodegradabilidade...
Após um ano e meio, foram escavados microperfis de solo para avaliar visualmente a distribuição da matéria orgânica em profundidades de até 20 centímetros. A metodologia utilizou indicadores morfológicos, especialmente o grau de escurecimento do solo, reconhecido pela ciência como sinal da presença de carbono orgânico e atividade biológica.
Os resultados revelaram contrastes marcantes.
O solo degradado recebeu nota zero tanto na camada superficial quanto na subsuperfície, indicando ausência de acúmulo significativo de matéria orgânica. Já o monturo alcançou nota quatro na camada de 0 a 10 centímetros e nota três entre 10 e 20 centímetros, demonstrando incorporação vertical do carbono. A área de varrição apresentou desempenho semelhante na superfície, mas menor eficiência na profundidade.
Segundo Isaias Pereira, não é apenas a quantidade de resíduos que importa.
“Os resultados evidenciam que a dinâmica da matéria orgânica não é determinada apenas pelo volume de resíduos aportados, mas principalmente pela qualidade e pela forma de deposição desses materiais”, afirma o pesquisador.
Carbono armazenado, solo recuperado
A relevância do estudo vai além da fertilidade agrícola. O armazenamento de carbono no solo é considerado uma das estratégias mais promissoras para enfrentar as mudanças climáticas.
No monturo, a deposição contínua de resíduos facilmente degradáveis estimulou intensa atividade microbiana, acelerando a formação de substâncias húmicas e favorecendo o sequestro de carbono em formas mais estáveis. Esse processo aumenta a capacidade do solo de reter nutrientes, armazenar água e sustentar a biodiversidade subterrânea.
O pesquisador observou ainda sinais claros de incorporação do carbono em profundidade, fenômeno considerado fundamental para a estabilidade de longo prazo dos estoques de matéria orgânica.
Sabedoria tradicional encontra a ciência
O conceito de monturo não surgiu em laboratórios. Trata-se de uma prática ancestral difundida entre populações amazônicas e comunidades rurais, baseada no reaproveitamento local dos resíduos orgânicos.
A pesquisa dialoga com estudos recentes que apontam a existência histórica de sistemas indígenas de enriquecimento do solo na Amazônia, incluindo a formação das chamadas terras pretas antropogênicas, consideradas algumas das áreas mais férteis da floresta.
Ao validar cientificamente essa prática, o trabalho reforça a importância da integração entre conhecimento acadêmico e saberes tradicionais.
“O uso da análise visual mostrou-se uma metodologia eficiente, sensível e acessível, favorecendo a integração entre saberes locais e científicos”, conclui Isaias Pereira.
Impacto público e potencial de replicação
Os resultados possuem implicações diretas para políticas públicas de manejo de resíduos, agricultura urbana e recuperação ambiental.
Diferentemente de tecnologias complexas e de alto custo, o monturo depende apenas da organização local dos resíduos orgânicos produzidos diariamente em residências e pequenas propriedades. Sua adoção pode reduzir o envio de resíduos para lixões, diminuir emissões de metano e aumentar a fertilidade dos solos em quintais produtivos.
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Em um cenário global marcado pela perda de solos férteis, pela expansão das mudanças climáticas e pela crescente geração de resíduos urbanos, a pesquisa desenvolvida em Santarém sugere que parte das respostas pode estar em práticas tradicionais há muito conhecidas pelas populações amazônicas.
O estudo demonstra que inovação nem sempre significa criar algo novo. Em alguns casos, significa compreender melhor aquilo que comunidades locais já fazem há gerações — e reconhecer que a ciência moderna ainda tem muito a aprender com a sabedoria ancestral da floresta.
Referência
MONTURO: TECNOLOGIA ANCESTRAL DE MANEJO DA MATÉRIA ORGÂNICA NA RECUPERAÇÃO DE SOLOS DEGRADADOS EM QUINTAL AGROFLORESTAL. Isaias da Silva Pereira. doi.org/10.51891/rease.v12i5.26361